Quando eu era mais jovem, eu e o meu pai passávamos os finais de semana em um pequeno penhasco, perto da minha cidade natal, que é Pessac (que é uma comuna na região metropolitana de Bordeaux), na França. Eu tinha metade do peso dele e ele tinha que me amarrar a uma árvore para que eu pudesse escalar. Eu era uma criança ansiosa, mas não me sentia assim na escola.

Mas, ao ir escalar nos finais de semana, especialmente quando coloco o meu foco total em uma rota, isso me faz esquecer as minhas preocupações. Me sinto livre, como se fosse eu mesma. 

Um dia, quando eu tinha uns oito anos, falei para o meu pai que eu queria escalar Visa pour l’au-delà, uma rota 6b que era próxima de um dos projetos dele. Queria tentar lembrar de cada agarra para mãos e pés, cada sequência, e daí contar para o meu pai a porcentagem que eu me dei para alcançar o sucesso. 

Queria tentar surpreender ele! Trabalhei na rota por três ou cinco dias até conseguir subir e me apaixonei por isso. Sempre clipada, continuei a projetar ao longo dos anos. 

De vez em quando, eu tentava avistar uma rota esportiva ou um problema de boulder, mas, para mim, a maior expressão de desafio físico e mental vem quando eu tento uma escalada ou testo os meus limites, ao trabalhar os movimentos para juntar as partes da escalada.

Eu normalmente pego projetos que sejam desafiadores de alguma forma ou atrativos pela qualidade das rochas ou pela localização do lugar. O penhasco de La La Reina Mora (9a/5.14d), em Siurana, na Espanha, por exemplo, é uma linha perfeita que combina escalada, com uma crux de pinça para terminar nos bolsões. 

Também em Siurana está Chikane (8c+/5.14c), que é da velha guarda, uma rota técnica com um paredão vertical com grandes rotas de corrida (tive que pular um trecho na crux que era muito assustador!). Assim como muitos escaladores, tenho uma lista de rotas que eu gostaria de fazer na vida, só pelo fato de eu achar que elas são únicas e eu ficaria orgulhosa de mim mesma por conseguir essas escaladas especiais. Se eu tentar algo que não encontro a solução imediatamente, ou então se a rota me assusta, fico obcecada para colocar ainda mais energia nisso. Na escalada, como na vida, gosto desse desafio para me provar que não existem regras, que não é porque você não faz um movimento que você não vai conseguir fazer a rota. 

E também não é porque algumas pessoas pensam que você não vai conseguir, que você realmente não vai conseguir. Eu amo tentar desacreditar essas concepções prontas. Isso me permite entrar em um estado de espírito onde eu sinto que projetar é um jogo, e volto à meta de escalar que eu tinha desde quando eu era pequena. 

Escalar no melhor que você pode e ao máximo do seu potencial leva tempo, ainda assim, se manter motivado não é sempre muito fácil. Por isso, tento pular de um projeto para outro, em geral, então tentar completar o que eu comecei me faz desenvolver a persistência. Uma vez que eu me sinto capaz de fazer todos os movimentos em uma escalada, eu vejo que eu posso mandar ela.

Isso é só uma questão de tempo e ser capaz de colocar todas as peças juntas. Para isso, preciso estar bem fisicamente e também mentalmente, para ter um dia perfeito.

Me sinto inspirada a desafiar os meus limites mais e mais, mas, para isso, é preciso ter paciência e diferentes níveis de compreensão. Em alguns dias, me sinto forte e no controle, em outros dias que faço tentativas, me sinto terrível.   

Sua mente pode pregar peças em você e você tem que aprender a confiar em si mesmo, que você consegue atingir aquilo que começou. Durante o processo, você pode aprender lições de vida poderosas como: tentar com mais vontade, ser positivo, acreditar em si mesmo e nunca desistir. 

 

Todos nós nos desafiamos de alguma forma em modos diferentes, seja em um boulder, escalada de rota, competições ou em uma escalada solo. Não importa o meio, como escaladores, procuramos momentos onde a gente pode tirar o melhor de nós mesmos e aprender a ser melhor na escalada. 

Penso que isso nos ajuda a melhorar como pessoas na nossa vida cotidiana também. Escalar nos dá a chance de desacelerar, focar somente no que está diante de nós, de um movimento para o outro, do começo até o final.  

A rocha nos proporciona tanto uma sala de aula como um grande parque de diversões onde podemos nos desafiar e nos expressar, o que é algo que sempre devemos nos lembrar. Isso serve principalmente para quando estamos frustrados (como acontece com todos os escaladores) quando estamos sem ideias para os nossos projetos.