Pais que são escaladores constantemente sonham de ver os filhos seguirem os passos deles pelas rochas. Para muitos, isso serve como um questionamento: Como introduzir o esporte para os filhos (ou filhas) sem colocar mais pressão para que os filhos possam se apaixonar pelo esporte por conta própria.
O escalador francês Philippe Dufraisse decidiu fazer uma abordagem de deixar a paixão da filha pela escalada acontecer naturalmente. Eventualmente, ele levaria a filha Alizée para os penhascos no final de semana, deixar ela correr livre, caçar caramujos e deixar ela escalar uma rota ou outra, se ela quisesse. Pouco a pouco, ela entendeu o estilo de vida e conseguiu ultrapassar o pai nas pedras.
Enquanto muitos filhos crescem e se distanciam dos pais, a escalada apenas estreitou a relação entre pai e filha. “Acho que temos muita sorte por dividir a mesma paixão”, diz Alizée. “Para muitas pessoas, a carreira delas ou estilo de vida as distanciam dos pais e eles não têm muito tempo para ficarem juntos”, comenta ela.
Com 33 anos, Alizée agora é uma escaladora profissional e ainda segue os passos do pai, o que a torna uma escaladora melhor, nas palavras dela. Uma diferença é que agora é ela mesma quem controla a corda.
Aqui, Alizée e Philippe falam sobre a relação deles, como a escalada tem participação nisso e as lições que eles aprenderam juntos ao longo dos anos (as respostas de Philippe foram traduzidas do francês):
Entrevista com Philippe e Alizée Dufraisse:
Philippe, quando você introduziu a escalada para a Alizée?
[Philippe]: Alizée descobriu os penhascos quando eu comecei a escalar em 1995. Ela tinha sete anos na época.
Ela gostou rapidamente ou não tinha muito interesse no começo?
[Philippe]: Ela imediatamente amou a escalada em penhascos, escalar árvores, visitar cavernas, dormir em uma barraca ou albergue, divertir-se com os amigos na base dos paredões e escalar algumas rotas de vez em quando, mas, no início, a escalada não era tudo para ela.
Alizée, você se lembra como foi a sua introdução na escalada?
[Alizée]: Meus pais estavam divorciados naquele tempo, e eu passava os finais de semana com o meu pai, indo para os penhascos com os amigos. Então, comecei lentamente a descobrir a escalada por fazer parte daquilo, estar na natureza, divertindo com outras crianças e fazendo parte do estilo de vida. No começo, perguntava se poderia usar as cordas e nas escaladas em casa eu usava as agarras grandes enquanto ele treinava com os amigos. Depois, passei a fazer mais e mais quando cresci.
Como eram essas experiências? Você gostou da escalada logo de cara ou se sentiu pressionada pelo seu pai?
[Alizée]: Tinha muito medo de escalar no começo, mas amava me mexer nas pedras e o fato é que, quando você escala, se esquece de todo o resto. Você está concentrado apenas em lidar com os seus medos. Também sempre quis chegar ao topo, sem olhar para baixo, sem alcançar o topo. Nunca me senti pressionada, mesmo que quisesse mostrar para ele (e também para os outros), que não importava o que eles pensavam, eu conseguiria. Tentei impressionar ele, mas, como ele sempre acreditou em mim, era difícil de impressionar ele, então eu me esforçava muito para isso.
Você pode dividir algumas das melhores lembranças das primeiras escaladas que vocês tiveram juntos?
[Philippe] Acredito que foi em 1999, nós fomos por uma semana no desfiladeiro Verdon. Eram 25 adultos junto com as crianças. Alizée descobriu as cordas, rotas e manobras ali. Ela estava na sua essência, feliz, como se quisesse fazer isso para sempre. Foi aí que eu entendi que ela se apaixonou por isso e não iria parar.
[Alizée] Me lembro que nos primeiros anos que eu ia escalar, acompanhava o meu pai, os amigos dele e minha prima Julie. Me divertia muito com ela, brincando nas florestas, inventando histórias, nomes de trilhas, caçando caramujos e outras coisas. E então, quis começar a escalar e pedia uma corda. Era muito divertido. Meu pai estava sempre disponível quando eu queria escalar algo, mas nunca me pressionou para isso. Às vezes eu queria escalar, outras vezes não.
Philippe, quando você percebeu que a Alizée tinha talento para a escalada e como se sentiu por ser o pai dela e também um escalador você mesmo?
[Philippe] Antes de escalar em rochas, treinei salto com vara. Alizée também tinha talento no salto com vara. Imediatamente percebi que ela tinha muito talento e potencial para florescer nesta atividade ao ar livre.
Na relação entre pais e filhos existe um momento em que o filho (ou filha) ultrapassa o pai. Philippe, você se lembra como isso aconteceu e como você se sentiu?
[Philippe] Isso tudo aconteceu muito rápido. Em 2003, quando Alizée estava no segundo ano dela de escalada, ela fez o primeiro 8b [5.13d] em maio, aos 15 anos, e depois um 8b/8b+ [5.13d/5.14a] em julho e, contrariando todas as expectativas, ganhou o Campeonato Mundial juvenil em setembro. Não foi muito difícil para ela me superar.
Vocês ainda escalam bastante juntos?
[Alizée] Claro. Meu pai mistura os anos dele de escalada com os amigos na França e se juntar a mim e ao meu companheiro, por várias vezes na Espanha, para me apoiar, mas também para ele mesmo fazer escalada. Por várias vezes, quando ele vem para a Espanha, é mais trabalhoso para ele focar apenas na própria escalada porque eu sou uma filha que exige muita atenção (risos). Sou muito focada e ele ama tentar ajudar e me apoiar nas maneiras que ele consegue quando eu estou envolvida nos meus projetos. Mas os amigos dele também aparecem muito na Espanha para se juntar a nós também e ele muitas vezes escala com eles e também com a gente, quando ele tem vontade. Agora, algumas vezes eu coloco as cordas e as agarras para ele e algumas vezes também dou apoio para ele nos projetos dele!
Como a escalada afetou o relacionamento entre vocês?
[Alizée] Eu e meu pai amamos as mesmas coisas: estar ao ar livre, na natureza, nas pedras, nos incentivando para a escalada e dividindo momentos com os nossos amigos! Então, ainda podemos compartilhar muito mais!
[Philippe] Isso estreitou a nossa relação entre pai e filha. Nós gostamos de escalada na mesma medida em que gostamos um do outro. Isso surpreende algumas pessoas, mas isso no geral faz as pessoas admirarem a relação que temos.
Alizée, o que você aprendeu com o seu pai ao longo dos anos?
[Alizée] Meu pai me impressiona de muitas formas. Quando ele tem um projeto e ele é capaz de fazer os movimentos, não importa o que, ele vai mandar essa. Ele tem uma grande capacidade de acreditar em si mesmo para juntar forças e lutar até o final. Escalar com ele me ensinou a ter confiança de alguma forma. Adoraria ter a mesma tenacidade do que ele. Ainda tenho algumas barreiras, acho que muitas coisas que são desnecessárias e desperdiçam o meu tempo, e eu também não sou a pessoa mais confiante para escalar. É exaustivo focar apenas no lado positivo o tempo todo. Estar com ele me faz lembrar do jogo da escalada: Não importa como você se sente ou enxerga o projeto. Se você quiser fazer, você consegue!
Philippe, você tem sido o mentor da Alizée de várias maneiras, mas ela te ensinou algo sobre a escalada ao longo dos anos?
[Philippe] Alizée me mostrou que eu tenho muito trabalho a fazer na parte psicológica do treinamento e que eu tinha que adaptar para a qualidade e não para a quantidade.
Como pai dela, você teria feito algo de diferente no que se refere a escalada? [Philippe] Não. Sempre fiz as coisas pela perspectiva do pai. Sempre escutei a Alizée e sempre tentei dar à ela o conselho certo na escalada, no esporte e na vida.
Alizée, você acha que estaria aqui sem a influência do seu pai? [Alizée] Tive sorte do meu pai ter me introduzido ao mundo da escalada. Nunca me senti pressionada para viver uma vida ‘normal’ e me encaixar na sociedade: ir para a escola, ter um bom emprego, tentar ter dinheiro ou ser bem-sucedida. Pelo contrário, ele me mostrou um estilo de vida alternativo, onde é possível viver livremente na natureza, em um ambiente em que você pode aprender e crescer como pessoa. Isso não quer dizer que eu parei a escola ou algo assim, mas fiz de uma forma diferente. Passei a estudar remotamente a partir da universidade e eu começo o meu doutorado no ano que vem com a mesma liberdade de estar onde eu quero estar para poder fazer escaladas.
Nunca me senti pressionada para viver uma vida ‘normal’ e me encaixar na sociedade: ir para a escola, ter um bom emprego, tentar ter dinheiro ou ser bem-sucedida. (Alizée Dufraisse)
Meu pai me deixou a escolha do que eu queria fazer. Ele compartilhou o conhecimento que tinha, mas não impunha nada e me apoiou emocionalmente ao longo do caminho. Ele esteve ao meu lado nos momentos difíceis e também nos bons momentos com os sucessos que eu consegui. Ele me conhece melhor do que qualquer um. Nunca seria essa pessoa e essa escaladora que sou sem ele. Estou feliz e orgulhosa de ter ele ao meu lado.
