Jacky Godoffe talvez seja um dos melhores planejadores de rotas no mundo, mas ele teve um começo difícil.  O ano era 1993 e a Federação Francesa de Escalada o colocou no final da fila. Os dirigentes da federação pediram para ele fazer a rota das finais das mulheres, mas, o que acontece é que Godoffe nunca fez isso antes. A bit overzealous, perhaps, he set hard moves off the ground. Out of the 12 climbers in finals, 10 or so fell before the first bolt. “It was a disaster, a nightmare,” he says. “But, you know, I didn’t know anything about setting, and I realized I had missed something.”

Sem se deixar abalar, Godoffe seguiu firme e aprendeu com os próprios erros para se tornar um dos melhores desenvolvedores de rochas entre os escaladores. Ele criou a escalada de velocidade universal, que é usada até hoje, mesmo 15 anos depois, e ele serviu na comissão de desenvolvedores de rocha do IFSC Route Setting Commission por 10 anos e, literalmente, escreveu um manual em como mandar uma rota. 

Aos 61 anos, ele ainda escala e orienta outros escaladores na Federação Francesa de Escalada, sendo um dos 30 membros certificados pelo IFSC como um dos planejadores de rotas na Copa do Mundo, que acontece anualmente. “De início, eu era um planejador bem fraco, apesar de ser um bom escalador. Mas, eu percebi que eu tinha algo para aprender e continuo a aprender até hoje”, diz ele.  

Conversamos com Godoffe para ouvir dele sobre o processo criativo, a evolução do planejamento de rotas e as lições que ele aprendeu ao longo de três décadas na profissão.

Perguntas para Jacky Godoffe: 

Quando você começou a escalar e como entrou para o planejamento de rotas? Ainda que eu morasse em Fontainebleau, eu comecei a escalar bem tarde, quando eu tinha 20 anos, mas virou um vício imediato. Escalei bastante na floresta, depois comecei a escalar de forma competitiva. O passo seguinte foi começar a ensinar e eu passei pelo credenciamento para me juntar à Federação Francesa de Escalada com o primeiro treinador. Foi aí que eu comecei a perceber que o planejamento de rotas parecia interessante. Parecia uma extensão do que eu fazia em Fontainebleau, ao descobrir e estabelecer novos boulders. Este processo é similar ao de encontrar novos truques, para preparar o parque para outros, e dividir isso com os outros. Então, eu comecei com o planejamento de rotas provavelmente 10 anos depois que o meu vício em escalada começou. 

Como você melhorou depois de uma experiência terrível no Campeonato Francês? Me coloquei em muitas competições, e, pouco a pouco, melhorei. Cometi muitos erros nas primeiras tentativas, e elas ainda permanecem sempre na minha cabeça. Não os erros em si, mas as ideias que eu pensei que eram boas, mas que no final não funcionaram. Para ser um bom planejador de rotas, você tem que aprender com as suas falhas, e, quanto mais você aprende, mais você percebe que tem muito mais a aprender. Isso é um aprendizado sem fim, honestamente. Para planejar é preciso experiência, e por meio dela, eu tive a oportunidade de planejar ao redor do mundo, com diferentes pessoas e em diferentes lugares. Então, eu me tornei melhor com as trocas que eu tive com outros planejadores. Isso é exatamente o mesmo com a escalada, se você quiser melhorar, o jeito mais rápido, com certeza, é escalar com outros bons escaladores. Você vai aprender e observar para integrar esse conhecimento. Isso é a mesma coisa para planejar uma rota. Também é o mesmo para tudo [na vida], eu diria. 

“Para ser um bom planejador de rotas, você tem que aprender com as suas falhas e, quanto mais você aprende, mais você percebe que tem mais para aprender. Isso é uma história sem fim, honestamente”

Quais são outros talentos importantes quando se planeja uma rota? Curiosidade, eu diria, e a habilidade de gerenciar o seu ego. Isso não quer dizer que você tem que abandonar o seu ego, é importante ter um quando você está planejando, porque você precisa de determinação para alcançar os seus objetivos. Mas, ao mesmo tempo, planejamento requer um trabalho em equipe, então, é importante ouvir as pessoas que estão em volta de você. Esse é um bom equilíbrio. Lá no começo, eu não ouvia muito os outros. Mas eu aprendi que o resultado final é o resultado da equipe. É um resultado de processo. Você tem um alvo especial em uma competição, não tudo sobre você. Você não tem que agradar a si mesmo, você tem que agradar as pessoas que vem para a escalada, e também aqueles que vêm para assisitir. 

Você pode descrever o seu processo de planejamento? Como você vai de um muro sem nada para uma pilha de agarras e termina em um boulder? Primeiro, você tem que fixar o alvo da escalada. Esse alvo é para um homem ou uma mulher, em uma Copa do Mundo, para um ginásio, para jovens? Depois você tem que decidir o objetivo ou estilo do seu boulder. Por exemplo, ele será poderoso e dinâmico ou técnico e requer paciência? Uma vez que você sabe o seu alvo e o seu objetivo, você consegue escolher as agarras. A partir daí, existem muitas abordagens diferentes para planejar uma rota. Você pode tentar replicar algo que escalou no passado, ou deixar que as agarras inspirem o traçado, sabendo que no final você vai precisar alcançar o alvo. Quando você terminou o seu rascunho, que pode levar cerca de 40 minutos ou algo assim, então você tem um curto período de tentativa sozinho para checar se a dificuldade está boa, com o objetivo certo e o alvo correto. Se você achar que está bom, então você pode pedir ao time de planejamento para fazer uma crítica e melhorar. Essa duração do trabalho em equipe depende da qualidade do seu rascunho. Às vezes, é muito rápido, às vezes a gente tem muito trabalho por horas para ajustar o mesmo boulder ou rota, e às vezes a ideia original tem que ser abandonada e você tem que começar tudo de novo. Isso é um processo. 

Como você estabelece uma competição para ser justa em todas as alturas? Em muitos esportes clássicos, os atletas são mais ou menos da mesma altura. Mas na escalada você pode ter um escalador muito alto ou muito baixo, mesmo que eles sejam muito fortes e talentosos. Em todas as escaladas podem ser elaboradas para todas as alturas de pessoas, isso é impossível. Mas, na média, você tem que ter uma diversidade de rotas. Para alguns boulders, os escaladores mais baixos terão vantagem e os mais altos terão problemas. O contrário também é verdadeiro. No geral, no planejamento moderno, eu diria que não é muito vantajoso ser muito alto ou muito baixo. É importante ter diferentes alturas de planejadores para fazer o traçado justo e interessante para todos. O mesmo serve para o ginásio. Se todos os planejadores forem mais altos do que a média e não se atentarem aos clientes mais baixos, eles não ficarão contentes. 

O que diferencia um planejamento de competição de um ginásio que é usado todo dia? Quando você prepara algo para competição, você prepara para um ranking. Você tem que ter algo mais seletivo, não tão difícil, mas não tão fácil para que isso sirva para todos os escaladores. Eu diria que essa é a parte fácil. Fiz planejamento por mais de 25 anos, então, eu sei mais ou menos as habilidades de cada bom escalador. Para mim, o principal é preparar para a audiência. Se a gente quiser que o nosso esporte cresça, ele tem que cativar as pessoas, mesmo aqueles que não são escaladores. Então a gente tem que prestar atenção para a estética dos movimentos, para fazer algo dramático, para contar uma história. Algumas vezes somos bem sucedidos, algumas vezes falhamos, porque não é fácil de fazer isso. Existem muitos elementos para se juntar. 

Na sua cabeça, o que faz uma boa rota ou boulder? Com o passar dos anos, eu aprendi a não julgar uma escalada baseada nos competidores. Essa não é uma boa resposta no momento, porque quando eles conseguem, estão felizes e quando falham, estão tristes. Para mim, o melhor feedback, primeiro de tudo, é o ranking. Se é bom, estamos felizes. Mas então eu vejo os rostos das pessoas na audiência. Se eles sorriem, eu sei que isso foi bom. Isso serve também para os ginásios também. Se você arrumar para clientes, você vai ter que ver também qual é a demanda deles, para surpreender eles e também encorajar eles a tentarem coisas novas. Quando os clientes escalam os boulders que você preparou, você tem os resultados e os feedbacks instantaneamente, daí pode perceber o que tem que ser melhorado para uma próxima vez. No geral, eu diria que nós os planejadores de rotas, fazemos perguntas e os escaladores nos dão as respostas. É isso. E o resultado de uma boa competição acontece quando a pergunta e a resposta se juntam. 

No geral, eu diria que nós os planejadores de rotas, fazemos perguntas e os escaladores nos dão as respostas. É isso. E o resultado de uma boa competição acontece quando a pergunta e a resposta se juntam. 

Você criou a escalada em velocidade universal com rotas competitivas, você pode nos contar mais sobre isso? A ideia da rota de velocidade era fazer algo absolutamente diferente do restante da escalada. As agarras únicas foram desenhadas para serem seguradas de três formas diferentes, e elas deveriam ser uma caricatura de um pássaro voando [risos]. Não sei se é tão óbvio assim, mas, sim. Eu desenhei a rota em alguns dias, e ao todo com o desenho da agarra, eu diria que isso foi feito em três meses. Eu acho que pela rapidez que foi feito, foi legal. 

Você acha que eles deveriam mudar as rotas das competições de velocidade de tempos em tempos? Ah sim. Não foi minha ideia naquela época criar uma rota que ficasse por 15 anos ou mais. Quando estava na comissão do IFSC eu perguntei para eles, talvez três ou quatro vezes, para mudar a cada cinco anos talvez. Mas agora, que todo ginásio ou time no mundo conseguiu todas essas agarras, eu acho que isso provavelmente os assustaria porque se tornaria uma bagunça. Na minha opinião, deveria ser trocado para estar mais conectado com o nosso mundo de agora, porque isso existe no mundo de 15 anos atrás.

Como o planejamento mudou com o passar dos anos? Ao mesmo tempo, mudou muito, mas não tudo, eu diria. Você ainda tem paredes brancas, algumas agarras e o seu alvo, as pessoas que escalam, e você tem que encontrar algo adaptado para eles. Isso é tudo igual. O que mudou foi a evolução dos materiais: as agarras, os volumes e os muros, que são impressionantes. Com estas novas agarras, nós vimos o aparecimento de novos estilos. Você pode fazer coisas diferentes e tentar coisas novas. Mesmo agora, a gente ainda consegue imaginar coisas novas para o futuro. Também vi a evolução dos melhores escaladores e treinamentos. Os escaladores agora treinam muito duro e são muito fortes, mesmo que sejam muito jovens. Então, a gente não só aumentou a dificuldade de planejamento, mas também introduziu novos fatores como mais complexidade e um tempo limite para a escalada, o que quer dizer que eles têm menos chances de chegar ao topo. O planejamento agora é uma mistura desses três elementos: intensidade, complexidade e risco. Como planejador, você mistura esses três elementos, como um DJ, ao aumentar um, diminuir outro, até encontrar o equilíbrio perfeito. Você não quer que o boulder seja muito fácil para que os escaladores não o escalem com muita facilidade, mas, também não pode ser muito difícil porque assim ninguém vai conseguir fazer ele. Finalmente, existe um progresso enorme para as mulheres. Me lembro que a gente planejava para garotas 15 ou 20 anos atrás, a gente fazia com sapatos normais, porque, se a gente fizesse com sapatilhas de escalada, era muito difícil, eu não estou brincando. E agora, mesmo com sapatilhas de escalada, é muito difícil. A evolução das mulheres nas escaladas competitivas tem sido incrível. 

Depois de fazer planejamentos por quase três décadas, você ainda acha isso interessante? Ah sim (risos). Obviamente, sou menos forte do que antes. Mas o que é interessante, eu diria, é que o meu planejamento era pior quando eu estava no auge da minha forma porque no geral eu planejo com uma dificuldade elevada. Eu planejo mais para mim mesmo. Mesmo quando você é um escalador de alto nível, você não tem todos os talentos possíveis. Você pode ser musculoso para se empurrar em uma subida, mas falta balanço e coordenação, por exemplo. Eu acho que eu melhorei no planejamento com o tempo, porque aprendi a ser consciente de outras pessoas com outras habilidades. Então, para mim, eu acho que é muito, muito motivador fazer um planejamento. Faço isso três ou quatro vezes por semana no ginásio para a Seleção Francesa e continuo muito focado, sim. Tem sempre uma nova história. Eu amo isso porque eu consigo compartilhar as emoções com as pessoas ao redor do mundo entre escaladores, juízes, outros planejadores de rotas e espectadores. 

O que o planejamento de rotas te ensinou ao longo dos anos? Planejamento de rotas não é sobre perfeição, mas uma busca por emoções. Nós sempre temos que lembrar da razão de estarmos planejando. Nós não planejamos apenas para colocar agarras em um paredão. Eu planejo para contar uma história. Eu planejo para propor emoções. E a cada dia que eu planejo, eu nunca me esqueço porque estou fazendo isso e porque estou tão feliz. É assim que eu estou nisso faz tanto tempo. Nunca se esqueça porque você faz o que faz, e isso serve para a vida em geral, eu diria. Quer você seja um atleta ou um músico, se você entender o porquê de estar fazendo essas coisas, eu acho que você não vai ser só melhor no que faz, mas mais feliz. Não sei qual é a melhor forma de viver, mas essa é a minha forma de viver. E depois de todos esses anos, eu ainda estou muito feliz.