Se imagine viajando pela América, explorando os melhores penhascos e escalando tudo, começando coulders de um metro e oitenta nos Tanques de Hueco até os seis mil metros das montanhas bolivianas. Para alguns, uma viagem dessas seria um sonho. Para Vini Todero, Nadja Pfister e o cão deles, Leki, isso era uma realidade. “O projeto todo nasceu do desejo de escalar e fazer algo que a gente se lembraria pelo resto de nossas vidas”, disse Todero sobre o sonhado projeto de 19 meses.

 

Os escaladores dirigiram por quase 10 mil quilômetros ao passarem por 15 países, com paradas nos lugares favoritos deles, o Red River George, a melhor pedra da viagem, além da Serra do Cipó no Brasil, a área mais impressionante, a área impressionante de El Chaltén na Argentina e a escalada mais amigável da viagem, feita nas montanhas bolivianas. Enquanto viajavam, eles encontraram diferenças visíveis nas culturas da Europa e das Américas. Eles também aprenderam um pouco de como fazer uma viagem dessas dar certo. 

 

A atmosfera

 

Enquanto o par dirigia pelo continente, eles encontraram aconchego e apoio em outros escaladores. No terceiro dia, eles tiveram um erro ao pagar o estacionamento incorretamente e tiveram a van apreendida. Depois, alguns escaladores os ajudaram a esclarecer o episódio e a van foi recuperada. Enquanto escalavam, os escaladores locais os abordaram e parabenizaram a cada rota feita de forma bem-sucedida, o que raramente acontecia na Europa. Esta ajuda dos escaladores e os encorajamentos recebidos os fizeram se sentirem bem-vindos. Eles também perceberam uma diferença visível nos escaladores. Eles notaram que os escaladores dos Estados Unidos também estavam comprometidos. “Na Europa, uma viagem de seis horas duraria por uma semana, mas nos Estados Unidos isso tipicamente acontece em apenas um final de semana”, disse Todero, ao fazer o cálculo de quanto seria necessário para dirigir aos locais, o que parecia muito difícil, mas isso deixou os escaladores estadunidenses animados para tentarem.

Mesmo com más condições climáticas, Rodero e Pfister viram outros tentarem escalar os penhascos. “Em um dia chuvoso ou frio na Europa, se você for escalar, você provavelmente estará sozinho no penhasco”, disse Todero, que viu escaladores estadunidenses nos penhascos, mesmo passando frio ou noites desagradáveis nas tentativas deles. “Talvez isso aconteça porque algumas pessoas precisem dirigir grandes distâncias até os penhascos, e uma vez que já estão lá, tentam aproveitar ao máximo. Ou talvez seja algo mais cultural”, pensou Todero ao refletir que os escaladores estadunidenses tinham mais atitude de “nós viemos aqui para escalar, então vamos fazer isso”. 

 

Este nível de comprometimento se traduziu em mais pessoas que resolveram tentar o estilo de vida com a van. Todero, Pfister e Leki viajaram com uma van enorme, o que os levou a ter problemas mecânicos normais, mas se mostrou ser uma boa opção para manter os 130 kg de equipamento em segurança. Mesmo que seja raro de ver na Europa os escaladores morarem em carros pequenos, eles encontraram várias pessoas morando em pequenas latas ou carros que foram transformados em casas. “Mesmo que não sejam confortáveis como um carro bem equipado, como uma van, especialmente nos dias frios ou chuvosos, essas casas pequenas podem ser boas e baratas para se viver de forma nômade”, disse Todero.

 

A escalada 

 

Sendo predominantemente escaladores esportivos, Todero e Pfister acharam a escalada pela América uma experiência única. Nos Estados Unidos, fissuras atravessam o arenito e o granito, permitindo mais escalada tradicional e uma mistura de vias com grampos e vias tradicionais no mesmo setor. Na Europa, essas áreas, incluindo as fissuras, seriam totalmente parafusadas. A combinação de fendas e parafusos permitiu que a dupla alternasse entre estilos ao longo do dia. “Foi realmente divertido fazer escaladas esportivas e tradicionais no mesmo setor no mesmo dia”, disse Todero. 

 

O estilo de fixação dos parafusos também diferia drasticamente. Depois de alguns dias no Red River George, eles perceberam que precisavam de uma agarra específica, porque muitos dos parafusos eram de uma escalada difícil acima deles, um fenômeno que eles não tinham visto na Europa. Eles não queriam gastar 50 dólares em um modelo pré-fabricado, foi então que eles decidiram juntar um tubo de PVC com uma vara de pesca. Os escaladores locais resolveram perguntar sobre a engenhosidade. “Eles nos perguntavam sobre o nosso modelo de 12 dólares que era excelente”, disse Todero.

 

Não só os primeiros parafusos eram altos, mas também existiam poucas rotas nos Estados Unidos. Exceção feita a Madness Cave e Red River George e qualquer linha que pudesse ser parafusada e escalada. Na Europa, uma área parecida poderia ter 15 rotas com cinco opções de links, mas, ao invés disso, existiam sete rotas distantes entre si e sem links. Isso criou um alto padrão de paredões, o que era muito apreciado pelos escaladores. 

 

Tirando o melhor da viagem

 

O par teve algumas memórias incríveis da viagem. No aniversário de 40 anos de Todero, o par escalou a Faixa do Cerro Chaltén. Para Pfister, o par escalou os 15 metros de El Sendero Luminoso (5.12d) em El Portero Chico. “Acordar às quatro da manhã, caminhando pelas vilas silenciosas, escalar com capacetes luminosos com os nossos amigos e ainda chegar ao topo sem quedas foi muito especial”, disse Pfister. Mas mesmo os grandes momentos da viagem tiveram alguns períodos de baixa. 

 

O par pensou estar na melhor forma da vida deles ao escalar pelo continente, mas o que realmente os chamou a atenção para a realidade foi o período sem escalar e só dirigir de um ponto ao ponto seguinte. “É difícil se manter em boa forma em um ponto específico se você não estiver focado”, disse Todero. Mas o ponto da viagem era menos sobre a performance e mais sobre fazer boulder em um dia e escalar uma torre em Cerro Chaltén no dia seguinte. Além disso, eles paravam constantemente para esticar e tirar fotos dos cactos que existiam ao longo do trajeto da viagem. 

 

“O mais difícil da viagem foi a parte de decidir fazer ela”, disse Todero. No começo, quando planejavam a viagem, a logística parecia animadora, mas, uma vez que eles começaram, ficou ainda mais fácil do que eles esperavam. “Por causa disso, a gente encoraja pessoas a procurarem aventuras e sonhos loucos, mesmo que eles pareçam muito difíceis ou fora da sua realidade”.