Fui para Oliana um pouco tarde, porque estava calor de uma forma insana. Tivemos dias de verão e o penhasco parecia mais uma praia do que um lugar de escalada. A meta era de aquecer e ir às 5:30 da tarde, quando o paredão estava sombreado, mas ainda não escuro.
Mas eu estava muito empolgada para escalar. Não conseguia ficar parada. Então, às 4:30 da tarde decidi fazer um ‘aquecimento de escalada’ no sol. Comecei a a escalar, sem esperar muito, e talvez por isso tenha dado certo.
Em julho, machuquei os tendões do joelho esquerdo, em setembro, tive a mesma lesão no outro joelho. Então, em outubro, tive uma lesão no dedo. Mesmo com todas estas lesões que pareciam sem fim, em dezembro, ainda consegui completar o meu projeto e escalar a minha primeira montanha 8c.
Em três anos, passei um mês com uma proteção de pulso e de mão, dois meses com uma proteção no dedo, sete meses de muletas, três meses com uma meia protetora durante o verão, um mês com uma proteção de ombro e dois meses e meio para me recuperar em um centro de reabilitação. Você pode imaginar que eu não escalei por algum tempo.
A subida é especial para mim, e não é apenas por causa do grau. É mais por causa da perseverança e dedicação que eu coloco. É mais sobre os problemas que eu supero. É sobre todas as aventuras e lições que a rota me deu ao longo dos últimos quatro anos.
Quase caí no meio da crux porque deixei escapar uma agarra do pé, daí me aqueci imediatamente, porque não tinha feito isso antes. Batalhei pelo caminho até o último ponto de descanso (abaixo da crux) e ali, com 45 metros acima do chão, a primeira coisa que eu disse para mim mesma foi: “OK, legal, você alcançou o topo de novo, isso está bom demais se considerar que você estava fraca nas partes baixas e tem o calor”. Estava pronta para desistir.
Foi quando comecei a ouvir as pessoas que estavam no chão me apoiando. Foi um momento mágico, porque senti que todos os escaladores que estavam ali e dividiram essa aventura estavam lá comigo para me apoiar, estavam comigo. Foi quando algo mudou na minha cabeça e o jogo mental começou. Decidi que eu deveria tentar o máximo e não desistir.
Quase caí no movimento crux, mas aí eu ativei o meu modo fera. Estava tão estressada lá que quase caí ao tentar agarrar o jarro próximo da âncora. Comecei a chorar antes de clipar o ponto. Daí senti uma onda de emoções, estava tão feliz e orgulhosa que não conseguia parar de chorar e abraçar os meus amigos.
Então, esta é a história de Fish Eye. Não foi a subida mais difícil do mundo, mas, definitivamente, vou me lembrar dela para sempre. Se eu aprendi algo com essa subida, foi que a gente nunca deve desistir dos nossos sonhos. E estou feliz que eu não desisti!
Dedicação
Tentei Fish Eye pela primeira vez em outubro de 2017. Entendi os movimentos logo na primeira vez, então, entendi que poderia fazer a subida em apenas um dia. Também sabia que isso iria significar muito trabalho e investimento, mas eu estava instantaneamente focada.
De novembro de 2017 a abril de 2018, estive em Oliana cinco ou seis vezes. Fiz bons progressos na rota, em abril caí uma vez no topo da rota, mas as condições eram terríveis. Estava quente e úmido, além de chover quase todos dias, o que deixava o topo da agarra crux molhado. Sabia que teria que ser muito mais forte do que eu realmente era se eu quisesse fazer isso em condições tão ruins.
Então, voltei para casa e fui treinar nos penhascos franceses, para depois voltar para a Catalunha alguns meses depois. Naquele momento, me sentia muito mais confiante de que conseguiria mandar Fish Eye na próxima temporada. Então, no dia 26 agosto de 2018, um círculo vicioso de lesões diabólicas começou.
Lesões e dificuldades
No dia 26 de agosto de 2018, estava escalando uma montanha linda 8b em La Hermida. No movimento de crux, senti um barulho alto e caí. Todo mundo pensava que era uma agarra quebrada, mas não, era o meu cotovelo. Precisaria fazer uma cirurgia para reparar o cotovelo fraturado.
Depois, fraturei os ligamentos do pé, seguida de uma trombose, uma fratura no calcanhar esquerdo, mais ligamentos rompidos e um tendão danificado no calcanhar direito, que precisaria de cirurgia. Também tive uma lesão no ombro, lesões nos dedos e finalmente lesões nos tendões dos dois joelhos, três vezes em cada joelho.
Este ano em particular tem sido muito desafiador. Tive uma cirurgia de calcanhar em maio de 2020, seguido por um período de três semanas em um centro de reabilitação. Comecei a escalar de novo em agosto, cinco meses depois de romper os meus ligamentos.
Em setembro passei mais algum tempo no centro de reabilitação e dei um grande passo para trás. Tive que tomar 130 anti-inflamatórios de injeção porque estava mancando de novo e não poderia escalar.
Voltei lentamente para as pedras em novembro de 2020. Em janeiro de 2021 ainda tinha problemas com o meu calcanhar e também machuquei um ombro em uma queda enquanto praticava snowboarding. Então, passei o mês de fevereiro de novo no centro de reabilitação. No final de março, operei o meu calcanhar de novo e machuquei os tendões.
Resiliência: Nunca desista
Nunca fui uma escaladora muito forte. Nunca foi um dom e nunca vou ser a escaladora que pega as rotas mais difíceis no mundo, Mas trabalho duro para atingir um certo nível. Algo que ninguém pode tirar de mim é que eu sempre fui uma batalhadora. Sempre me recusei a desistir, mesmo quando tive que reaprender a escalar a cada seis meses e sentia que tinha voltado ao começo.
Naqueles momentos, Fish Eye sempre foi a luz no fim do túnel. Quando me machuquei, minha motivação para me recuperar bem não era simplesmente para voltar a escalar, mas para voltar a escalar forte. E mais forte do que antes, porque minha meta era a de escalar em um nível que eu ainda não tinha alcançado.
Foi isso que me ajudou enquanto estava no hospital sem saber o que eu tinha quebrado daquela vez, além das inúmeras sessões de fisioterapia, quando fiz as cirurgias, quando trabalhei duro no centro de reabilitação, quando fui reaprender a andar, nas injeções de anti-inflamatórios e também quando comecei a chorar porque tudo o que eu mais queria era voltar a escalar um paredão.
Foi por isso que Fish Eye tem sido tão importante para mim. Foi o que sempre manteve a minha cabeça acima da água.
“Duvidei de mim mesma centenas de vezes nestes últimos anos: minhas metas, escolhas de vida, minhas decisões. Mas, lá no fundo, nunca deixei de acreditar em Fish Eye” .
Muitas pessoas diziam que eu deveria parar com a escalada porque me machucava muito, então, muitos diziam que eu era louca por focar tanto apenas em uma rota. Também sabia que muitos pensavam que eu não seria capaz de escalar ela. E talvez eles estivessem certos, talvez eu realmente fosse louca por me dedicar tanto para apenas uma rota.
Mas, no final, essa loucura toda me deu tanto: aventuras incríveis, pessoas fantásticas que eu posso chamar orgulhosamente de amigos, uma casa nova e felicidade. Fazer o projeto desta rota me fez aprender tanto sobre mim mesma, me trouxe poucas baixas, mas muitas altas. Me ensinou a ter pontos fortes: uma forte determinação e resiliência.
Duvidei de mim mesma centenas de vezes nestes últimos anos: minhas metas, escolhas de vida, minhas decisões. Mas, lá no fundo, nunca deixei de acreditar em Fish Eye.
Sucesso e felicidade
No dia 30 de dezembro de 2021, apesar de uma noite muito ruim, acordei e sabia que seria O dia. Tinha aquele sentimento. E foi engraçado porque alguns dos meus amigos também acordaram com essa sensação naquele dia. Era a minha quarta semana seguida neste projeto. Melissa le Néve, que me orientava, esteve analisando e ajustando as sessões porque ambas sabíamos que estava perto da subida.
